O Anticomunismo com Características Chinesas – Christopher Wong

O capitalismo é um sistema mundial, não apenas o produto das decisões de países individuais. Substituir um império capitalista por outro é inútil.

Christopher Wong

05 de Fevereiro de 2021

Uma nova geração de ocidentais que se autodenominam Marxistas-Leninistas veio à tona nos últimos anos, se espalhando nos legados de Mao e Stalin. Eles afirmam ser os herdeiros dos velhos partidos comunistas da Terceira Internacional que dominaram o século 20 e representavam, pelo menos em suas mentes, a maior ameaça à ordem mundial Americana. Mas onde as gerações anteriores de Marxista-Leninistas se concentraram na substituição do capitalismo – o que foi entendido como o principal motor do imperialismo – esta nova geração de Marxistas-Leninistas deriva sua política de um conjunto amplamente imaginado de configurações geopolíticas. Evitando até a lógica de “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”, esses pretensos Marxistas-Leninistas se convenceram de que qualquer inimigo dos EUA é uma utopia socialista e talvez até mesmo uma potência anti-imperialista global.

Isso os levou a apoiar o moderno Partido Comunista Chinês (PCC), olhando para ele como um modelo de socialismo internacional e anti-imperialismo: o último baluarte do comunismo do século 20 contra o império Americano em constante expansão. O que esta geração de Marxista-Leninistas ignorou é o papel da China no final da Guerra Fria como a grande potência anticomunista no Oriente e seu papel subsequente no financiamento do império americano quando ele invadiu o Afeganistão e o Iraque. A história dessa transição – de vanguarda internacional do movimento comunista a importante aliado americano da Guerra Fria e membro da Organização Mundial do Comércio – é a chave para a compreensão da estrutura e manutenção do sistema capitalista moderno. Sem essa perspectiva, os aspirantes a esquerdistas são deixados a vaguear por uma realidade composta de slogans meio lembrados e os símbolos de um mundo que morreu há meio século, incapaz de ver a estrutura real do capital e do império que compõe o sistema imperialista Americano.

As relações entre os EUA e a República Popular da China (RPC) nem sempre foram amigáveis. Embora a oposição Americana ao comunismo tenha diminuído um pouco como um produto de sua aliança com a União Soviética (URSS) durante a Segunda Guerra Mundial (2ºGM), a administração Truman apoiou Chiang Kai-shek e os nacionalistas contra o PCC na Guerra Civil Chinesa. A resultante “perda da China” como vitória comunista na guerra civil foi considerada nos Estados Unidos como um dos principais impulsionadores da política anticomunista Macartista.

Quase imediatamente após o fim da guerra civil, a China e os EUA se enfrentaram novamente por causa da intervenção dos EUA na Coreia. Essa guerra veria as tropas Chinesas fazerem ataques de baioneta por meio de sua própria artilharia contra as posições Americanas entrincheiradas, enquanto as duas nações entravam em guerra pelo destino da península. Apenas trinta anos depois, a RPC apoiada pelos Americanos invadiria o recém-criado Estado socialista no Vietnã com o objetivo de esmagar a influência Soviética no Leste Asiático. Como podemos explicar essa rápida mudança geopolítica? Uma resposta está em duas crises que o PCC enfrentou no final dos anos 1960 e início dos anos 1970 – a crise geopolítica da cisão Sino-Soviética e uma crise de produção interna chinesa relacionada que abrangeu a maior parte do período socialista.

Um momento-chave em ambas as crises que levariam a China para o campo Americano foi a desindustrialização do cinturão industrial da Manchúria pela URSS. Este cinturão, desenvolvido pelos Japoneses durante a ocupação da Manchúria, foi transportado de trem para o outro lado da Rússia no final da Segunda Guerra Mundial para reconstruir a base de manufatura Soviética (contra os apelos dos comunistas Chineses), deixando o nascente Estado Chinês menos industrializado do que a Rússia em 1917 e fomentando tensões políticas e econômicas entre a RPC e a URSS. Em cada etapa do caminho da China, de resoluta comunista a aliada fundamental do império Americano, a competição interestatal entre governos nominalmente socialistas apenas fortaleceria o capitalismo. O produto final dessa estratégia desastrosa é o desfile interminável de horrores, das pragas capitalistas aos campos de concentração e aos ciclos intermináveis de fome e guerra que enfrentamos hoje.

A cumplicidade da China nesses horrores nos ensina que o anti-capitalismo é uma guerra de classes, não uma guerra entre estados, e que qualquer tentativa de confrontar o imperialismo – a grande geração do capitalismo – por esses mesmos meios está fadada ao fracasso. A compreensão do papel da China no império americano nos lembra com que urgência devemos enfrentar o sistema capitalista mundial em sua totalidade.

Tensões Sino-Soviéticas

As relações do PCCh com a URSS foram frágeis desde o início. A liderança imposta pelos Soviéticos da Terceira Internacional levou o PCCh a uma aliança desastrosa com os Nacionalistas. Isso culminou com os Nacionalistas massacrando os trabalhadores comunistas do levante de Xangai de 1927 e essencialmente destruindo a ala urbana do PCCh. As relações pioraram dramaticamente com o Discurso Secreto de Khrushchev e a ação da URSS para retirar seus assessores e técnicos como um protesto contra o Grande Salto para a Frente.

O acirramento das relações intensificou ainda mais o gargalo da produção econômica da China[1], uma crise que surgiu como produto da devastação que tanto a Segunda Guerra Mundial quanto a Guerra Civil Chinesa infligiram à agricultura chinesa. Para aumentar a produção agrícola, o PCCh precisava de capacidade industrial para modernizar a agricultura Chinesa com tecnologia como tratores. Mas para construir essa capacidade industrial, o PCCh também precisava expandir o suprimento de comida Chinesa para sustentar uma população urbana maior para fazer trabalho industrial. Isso criou um gargalo na produção que inibiu o desenvolvimento futuro. Em 1958, o PCCh tentou simplesmente explodir o gargalo usando a força absoluta de seus trabalhadores rurais. O Grande Salto para Frente tirou os trabalhadores agrícolas dos campos para se concentrar em projetos de infraestrutura e tentou compensar a escassez de mão de obra criada tirando os trabalhadores do campo. O resultado foi um desastre memorável. As fomes que se seguiram mataram milhões sem prejudicar o gargalo, o que aumentou drasticamente a urgência de construir capacidade industrial.

As relações Sino-Soviéticas continuaram a se deteriorar à medida que os anos 60 avançavam. Em 1969, um conflito aberto entre as tropas Chinesas e Soviéticas estourou na Ilha Zhenbao[2], o que quase causou uma guerra entre os dois países e viu divisões dos exércitos Chinês e Soviético mobilizadas em toda a fronteira. Esse conflito de fronteira finalmente causou uma ruptura decisiva entre a China e a URSS. A solução de Mao para esse problema foi iniciar negociações com os EUA para construir uma aliança anti-soviética e obter acesso à tecnologia Americana. Essas transferências de tecnologia foram vitais para o futuro da economia Chinesa. Esquemas de substituição de importações como o que o PCCh estava prestes a tentar fracassou, como foi o caso da Venezuela e do Pacto Andino nos anos 70, porque as empresas multinacionais se recusaram a vender aos países a tecnologia necessária para criar concorrentes industriais domésticos[3]. Os EUA, entretanto, estavam dispostos a enviar fábricas inteiras para a China como transferência de tecnologia, mas por um tipo diferente de preço – o PCCh venderia o movimento comunista global.

O realinhamento da China em relação ao capitalismo Americano

O primeiro sinal de traição foi o papel ativo da China no apoio ao Paquistão durante o genocídio de 1971 em Bangladesh[4]. Em 1972, o encontro de Mao com Richard Nixon sinalizou que todo o pivô anticomunista estava completo. Com esse pivô, a China se tornou uma aliada Americana próxima e o baluarte do anticomunismo no Leste Asiático e além. Em meados da década, o PCCh estava concedendo empréstimos a Pinochet[5], apoiando a UNITA em Angola ao lado da África do Sul e dos EUA contra Cuba e a União Soviética[6], e abriu relações diplomáticas com potências capitalistas reacionárias, do regime de Marcos nas Filipinas ao Japão. Deng Xiaoping selou essa aliança invadindo o Vietnã em 1979 em defesa do Khmer Vermelho apoiado pelos Estados Unidos[7] – que o governo Vietnamita tentava derrubar. O PCCh afirma ter matado 100.000 comunistas vietnamitas naquela guerra, o que quebrou a espinha do movimento comunista no Leste Asiático e essencialmente o encerrou como uma frente da Guerra Fria, permitindo assim que os EUA se voltassem totalmente para seus massacres na América Latina e na África em além da defesa da Europa contra a URSS e os movimentos comunistas internos.

A China continuou a apoiar os movimentos anticomunistas em todo o mundo durante o resto da Guerra Fria. A essa altura, a Guerra Fria estava quase acabando. O movimento comunista, traído pelos seus e lançado em uma pirueta irreparável, terminou com a queda da URSS e a vitória total do capitalismo Americano.

O realinhamento da China em relação ao Bloco Capitalista também resolveu outro problema para os EUA. Taxas de lucro em declínio durante a crise dos anos 70 causaram um excesso de capacidade maciça e não lucrativa no setor manufatureiro, acompanhado por um capital impossível de investir com lucro. Essa crise se manifestou em uma série de bolhas de dívida que se estendeu da América Latina ao Japão. No entanto, a integração da população altamente educada, mas extremamente pobre da China na economia global, tanto como fonte de trabalho quanto como mercado, restaurou a manufatura por tempo suficiente para que o capitalismo resistisse à tempestade.

O capital começou a fluir para as indústrias Chinesas, um processo que se intensificou com o colapso da bolha do Leste Asiático nos anos 90. As linhas de logística militares americanas, que antes continham a ameaça do comunismo Chinês, foram totalmente convertidos para atender às exportações Chinesas para os EUA com o advento do transporte em contêineres. Foi durante este período que a aliança militar da China com o império Americano se transformou totalmente em uma aliança econômica. O império Americano foi construído sobre dívidas[8]: seu poder financeiro e militar são inseparáveis. Os gastos deficitários Americanos pagam pelo exército Americano, que por sua vez é usado para arrecadar tributos na forma de forçar outros países a comprarem dívidas Americanas que nunca poderão nem serão reembolsadas. É por meio desse arranjo – compras de dívidas sob a mira de uma arma – que o império Americano é mantido. Mas, apesar da postura de oficiais Americanos e Chineses (apoiados por uma indústria de armas), os EUA não podem coagir militarmente a China, que possui tanto armas nucleares quanto o maior exército do mundo.

Isso torna o papel da China no império Americano absolutamente único. Ao contrário de outros grandes compradores de títulos Americanos (Japão, Coréia do Sul, Alemanha), que são protetorados militares Americanos[9] e podem até mesmo ser coagidos a aumentar o valor de sua moeda, a China subsidia a máquina de guerra Americana porque assim o deseja. Mais precisamente, o PCCh financia as guerras da América a fim de manter o alto valor do dólar em relação ao yuan, o que dá à China uma enorme vantagem competitiva na manufatura e é uma fonte crítica para o enorme crescimento econômico da China. Mas o custo para o resto do mundo é enorme. Embora a China claramente não tenha forçado os EUA a invadir o Iraque, ela financiou a guerra. Em coalizão com os protetorados militares do Leste Asiático-Americano, a China preencheu os enormes déficits orçamentários que resultaram da combinação da Guerra do Iraque, cortes de impostos da era Bush e a recessão do início dos anos 2000, sustentando a debilitada economia dos EUA quando a guerra começou. As compras de títulos Chineses se intensificaram com os gastos dos EUA no Afeganistão e no Iraque. De fato, o PCCh se tornou um participante ávido na nova Guerra ao Terror[10] por se aliar intimamente com Israel, adotando técnicas e tecnologias de contra-insurgência[11] Americanas do comércio em rápida expansão, e eventualmente contratando o mercenário Americano Erik Prince[12] para implantação em “Xinjiang”.

A China é cúmplice e, de certa forma, responsável pelo imperialismo Americano. O PCCh escolheu o lado do capital na Guerra Fria, condenou o movimento comunista internacional no processo e continua a financiar o imperialismo americano até hoje. Mas simplesmente alegar que ambos os estados são ruins é não entender o que interessa. O imperialismo em sua forma moderna é um produto do capitalismo. O capitalismo é um sistema mundial, não apenas o produto das decisões de países individuais. Substituir um império capitalista por outro é inútil. Qualquer forma de política antiimperialista que se concentre nas nações invariavelmente chega a colocar uma das faces do capitalismo[13] contra a outra, que só pode reproduzir o próprio sistema que afirma combater. Somente através de um confronto com todo o sistema mundial capitalista, não importa a cor de sua bandeira, o pesadelo do império pode acabar.

[1] – Consulte: https://chuangcn.org/journal/one/sorghum-and-steel/2-development/

[2] Goldstein, Lyle J. “Return to Zhenbao Island: Who Started Shooting and Why It Matters.” The China Quarterly, no. 168 (2001): 985-97.

[3] Coronil, Fernando. The Magical State: Nature, Money, and Modernity in Venezuela, pp. 262-285.

[4] Consulte: https://www.business-standard.com/article/news-ians/us-china-suppressed-genocide-reports-during-bangladesh-liberation-war-115032500714_1.html

[5] Consulte: https://www.nytimes.com/2004/12/07/business/us-and-others-gave-millions-to-pinochet.html

[6] Jackson, Steven F. “China’s Third World Foreign Policy: The Case of Angola and Mozambique, 1961-93.” The China Quarterly, no. 142, 1995, pp. 388–422.

[7] Consulte: https://www.jacobinmag.com/2015/04/khmer-rouge-cambodian-genocide-united-states/

[8] Consulte: https://lausan.hk/2020/non-sovereign-revolutions-thinking-across-puerto-rico-and-hong-kong-part-four/

[9] Consulte: https://lausan.hk/2020/jeju-island-hong-kong-part-1/

[10] Consulte: https://foreignpolicy.com/2020/02/03/can-china-replace-the-united-states-in-israel/

[11] Consulte: https://lausan.hk/2020/chinas-xinjiang-mode-counterinsurgency-strategy/

[12] Consulte: https://abcnews.go.com/International/erik-princes-company-plans-business-china-province-human/story?id=66139535

[13] Consulte: https://chuangcn.org/2020/01/the-divided-god/

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s